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A falta de liberdade de expressão pode ser encontrada em vários locais. Um desses é na imprensa, onde o mainstream é gerido pela publicidade e as grandes empresas.

A história é contada no Blog da agora ex-jornalista da Exame e do Expresso, que se despediu após lhe ser retirado de um trabalho sobre fundos de investimento um parágrafo em que fazia referência a uma recente condenação do BCP.

 

Jornalista despede-se depois do grupo Impresa lhe alterar um artigo sem o seu consentimento

 

O artigo escrito já censurado pode ser encontrado aqui (PDF), sem as linhas “apagadas” pela Exame, que em 2011 foi anunciada como a “revista mensal mais reputada”. Conta Marisa no seu blog que “a direcção da Exame ultrapassou todos os limites éticos e legais, qual lápis azul salazarista”.

 

— Para ler também: Millenium BCP bloqueia conta de donativos do Tugaleaks com base na lei de “combate ao terrorismo”

 

Da própria jornalista, em pleno dia da Liberdade – ou, em muitos casos, da falta dela – foram respondidas algumas perguntas sobre o seu despedimento.

Marisa Moura confessa que tentou anular a demissão e voltar a demitir-se por justa-causa mas que o prazo legal para o fazer já tinha passado. Diz ainda que “reuni com uma advogada e com o advogado da Impresa e nem exigi qualquer recompensa monetária, mas simplesmente que publicassem na Exame que aquele artigo continha dois parágrafos que a direcção retirou à revelia da autora, que os publicassem, que informassem os leitores que a jornalista já não escreveria mais ali porque se despediu acusando a direcção de censura, e que lhes pedissem desculpa, aos leitores. Não publicaram nada (…)”.

Trabalhou dez anos no grupo Impresa. A antiguidade não é um posto certo, nem de respeito ou dignidade.

Este caso “ilustra bem a promiscuidade entre os media e as empresas, e neste caso em concreto ilustra um dos efeitos perversos deste modelo de negócio que, tendo as suas virtudes, propicia situações como esta em que um órgão suja a imagem de um anunciante ou credor, e outro do mesmo grupo vai limpar as nódoas. O grupo Impresa tem a SIC, o Expresso, a Visão, a Exame, e uma série de outras revistas, como a Caras e a Activa, que também entram nas negociações em pacote com os anunciantes”.

Será apenas coincidência que hoje em dia seja extremamente difícil tocar nas grandes empresas multinacionais? A resposta a esta pergunta virá da consciência do leitor, mas, além da reunião com a advogada fez também queixa ao Sindicato dos Jornalistas.

Na sua decisão, o Sindicado dos Jornalistas afirmou que “(…)também porque os dois parágrafos retirados foram substituídos por outros que constavam do texto original da autora, não é possível ao CD concluir de forma inequívoca ter-se tratado de um acto de censura”.
A interpretação da jornalista é simples: “se escrever meio texto mais positivo, e a última metade mais negativa, e me cortarem a última metade toda, repaginando o texto, já não é censura porque não ficou nenhum buraco em branco e todo o texto publicado é de autoria da mesma pessoa”

Para a jornalista, que conta com duas queixas contra organismos públicos, a censura está bem viva nos dias de hoje, “(…) não só da parte das chefias dos órgãos de comunicação social e na forma de auto-censura dos jornalistas, mas também, claro, por parte dos governos e organismos que dele dependem directa ou indirectamente. Tenho duas queixas apresentadas em Janeiro deste ano 2013. Uma contra o Ministério da Justiça e outra contra a Direcção Geral dos Serviços Prisionais (entretanto denominada Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais entre a data dos factos e a apresentação da queixa). Ambas no âmbito de uma reportagem fotográfica com produção a meu cargo, para um jornal internacional, em Novembro do ano passado. Prefiro não identificar o título em causa, pois neste caso concreto não se tratou de um trabalho que me tenha sido directamente atribuído a mim, mas em que estive ao serviço de um fotógrafo freelancer estrangeiro que, por sua vez, estava ao serviço do jornal. A queixa contra o Ministério da Justiça é por ter vedado o acesso a um tribunal. A outra por vedá-lo a uma prisão. Ambas as recusas com argumentos inaceitáveis numa democracia como Portugal, oficialmente, ainda é.”

 

Exame afirma que paga mal aos colaboradores

Em 2007 a jornalista foi editora de secção Empresas & Negócios da Exame. Abdicou do cargo quando lhe disseram para ser menos exigente, principalmente com o pessoal externo. A frase que Marisa retém é “Não sejas tão exigente, sobretudo com os colaboradores externos. Pagamos-lhe mal, mas precisamos deles”. Diz que “tinha aceitado o cargo por, claramente, haver muito trabalho a fazer ao nível da qualidade e sentir que o conseguia fazer. Mas a partir do momento em que a direcção exigiu que se mantivesse a bitola da mediocridade, esvaziaram-se as minhas funções, logo o cargo. Logo, abdiquei do cargo nesse mesmo instante, bem como dos 300 euros extra de ordenado que tais funções remuneravam. Mantive-me como jornalista, até que entretanto, três anos depois, me vi obrigada a sair definitivamente da revista e do grupo”.

Marisa Moura está desempregada, honrada e precária. A experiência de dez anos numa das maiores empresas detentora de publicações periódicas e não só em Portugal pode ter valido de muito. Mas a dignidade com que saiu, pode valer mais ainda.

Em Portugal os casos de censura jornalística são vários. A Reports Without Borders mantém uma lista de casos, a maioria deles onde jornalistas são suspensos por recusarem a revelar as suas fontes como o caso do jornalista José Preto.

Hoje comemora-se a liberdade, e por isso, é de todo importante salientar, que a informação ainda não é livre.

 

O Tugaleaks tentou entrar em contacto o grupo Impresa e o diretor atual do Expresso, por e-mail, mas não recebem qualquer resposta.

 

Comentários

4 Comments

  1. Obrigado ao jornalista por não ter medo. Obrigada aos Tugaleaks por constituírem o meio de informação que é neste momento necessário.

  2. Os quadros de luxo nas empresas são sempre de gente da cor do partido no poder !

    Só vem cá para fora o que interessa o povo saber ou camuflar outras coisas …

    … Lápiz Azul !

    Muito normal em todo o lado .

    Vai certamente começar a perceber-se em Portugal porque razão os “negros” começaram com catanas a cortar a cabeça dos “brancos” .

    A verdade vai ser vivida novamente agora com luxuosos “brancos” contra escravos “brancos” .

  3. Muito humildemente devo reconhecer que não tinha presente o seu nome. Tenho 74 anos, entrei na Internet aos 71, não tive qualquer curso, foi por dicas, muita pesquisa, muita insistência, muita prática que me fui desenrascando.
    Não entrei na internet só para trocar mails, pois comecei a tomar acções para exercer a minha cidadania, e tenho muitos casos com êxito. O maior foi a PETIÇÃO METRO TROFA, que criei e levei ao Parlamento com 8178 assinaturas, onde foi debatida e votada. Terminada a apresentação, só quero dizer-lhe como fiquei admirado com a sua coragem e frontalidade. Parabéns!
    E a propósito, convido-a a consultar o meu blog http://novidadesdehenriquealmeidacayolla.blogspot.com onde faço uma publicação em que pergunto se haverá jornalistas que sejam capazes de confrontar os visados com os temas lá apontados, e um deles é `Pinto Balsemão e o atentado de Camarate. Logo a seguir dou-lhe o título exacto.

  4. A publicação foi feita em 4 de Julho 2013, e o título é :
    TEMAS ALTAMENTE EXPLOSIVOS.
    Relação de perguntas e/ou questões que deveriam ser trabalhadas por jornalistas de coragem.

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