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Estamos à beira de mais um caso BPN. O estado pode muito bem ajudar o BES a sair do sítio onde se enfiou. E quem vai pagar? Eu, tu, nós. Os Portugueses.

A opinião é de João Camargo, dos Precários Inflexíveis e também cronista no P3. Como já se sabe que a Europa não vai ajudar Portugal com o problema do BES, resta-nos sermos nós, os Portugueses, a pagar mais uma vez a ajuda à banca.

 

Na sua opinião, o BES será pago pelos portugueses de que forma? mais um “caso BPN”, carga fiscal, etc.?

Tudo indica que o resgate do BES (pela dimensão já conhecida e pela expectável – que pode chegar aos 8,5 mil milhões de exposição do BES ao GES) será feito pelo Estado. As garantias dadas pelo Primeiro-Ministro, pelo Presidente da República e pelo Governador do Banco de Portugal, de que o banco não precisa de apoio são apenas gestos destinados a não afugentar os investidores do banco. O Estado já garantiu que tem 6 mil milhões e euros disponíveis para recapitalizar o banco, mas é possível que este dinheiro não chegue, especialmente se o contágio for, como é expectável, passando de empresa para empresa em que o BES e o GES têm participações. O banco valorizou nos últimos dias e o sinal da detenção de Salgado pode ter que ver com o corte definitivo com a gestão anterior. A rede tentacular do BES em toda a economia portuguesa (e no estrangeiro, nomeadamente em França, em alguns países africanos e nos EUA) é muito interessante para investidores que queiram uma carcaça. Não é por isso de estranhar o forte investimento da Goldman Sachs e de um hedge fund americano, David E. Shaw. O resgate será sempre pago pelos portugueses. Já foi pago em parte com as medidas de austeridade do passado, mas há fortes indicações que o fundo de maneio do governo não chegue, especialmente quando a dívida pública e o défice voltam a subir. É expectável que o governo (este ou o próximo) utilize exactamente a mesma táctica: transferir as perdas da banca privada para o domínio público para depois utilizar o aparelho de contribuições, taxações e redistribuição da riqueza para transferir capital do trabalho para a banca privada.

 

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Qual foi o erro do estado neste problema do Grupo Espírito Santo?

O Estado cumpriu exactamente aquilo que a Europa mandou – aumentou apenas marginalmente alguns critérios de desalavancagem para a banca de retalho privada – com dinheiros públicos nacionais (através do empréstimo da troika ou através de dívida pública). A UE não apertou os critérios de regulação sobre a banca depois dos crashes de 2007 e 2008 – depois de disponibilizar mais de 40% do PIB europeu para salvar a banca, não pediu quaisquer contrapartidas à banca, nem sequer que esta facilitasse crédito nos países europeus. E assim sendo, os bancos como o BES obtiveram dinheiro quase dado do Banco Central Europeu, que foi habilidosamente conduzido a outros países e utilizado para montar uma sucessão de operações especulativas criando o buraco financeiro que hoje começamos a ver. Mas esta é apenas a actividade bancária tradicional dos dias de hoje. O que qualquer pessoa considera um crime é prática corrente na banca, mas como não há regulação, vale tudo. O Governo falhou na defesa dos interesses da população, mas esse nunca foi, admitamos, o seu objectivo.

 

Como classificas actualmente, no geral, a “saúde” dos bancos em Portugal?

O BES pode ser um castelo de cartas. A promiscuidade dos grandes bancos entre si e os monopólios que estabelecem, geralmente à conta do Estado – seja através de PPPs, concessões, rendas instaladas criam um emaranhado forte demais para se poder destrinçar à partida o resultado. Há dois bancos com impacto sistémico financeiro no país: o BES e a CGD. O colapso do BES poderia fazer o resto da banca ir atrás e o PSI-20 ter fortíssimos impactos (basta ver a brincadeira de Henrique Granadeiro que emprestou quase mil milhões de euros da PT, uma empresa de comunicações ao BES, um banco!). Nessa altura a nacionalização da banca de retalho pode tornar-se inevitável. Mas sempre contra o interesse da população e para proteger os investidores. “Nacionalizam-se as perdas, privatizam-se os lucros”. Talvez venha aí mais uma explosão da dívida pública. E lá vão dizer mais uma vez que “vivemos acima das nossas possibilidades”.

 

 

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